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ENTREVISTA: Between the Buried and Me

26 SET 2011 @ The O2 Academy, Bristol
com Paul Waggoner and Tommy Giles Rogers

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Eduardo Piloni para o Mondo Metal
www.mondometal.com.br

Tommy Rogers

Uma banda extremamente talentosa e pesada que não quer ser parte da típica onda do metal. Vegans e caretas, que procura fugir do rótulo das bandas que os rodeiam, e teimam em dizer que não são técnicos… sério? Vejam e tirem suas próprias conclusões.

EP: Nos últimos anos, BTBAM passou pela Europa como banda de apoio. Houveram alguns shows como cabeça de cartaz, mas agora vocês estão sendo capazes de fazer uma turnê completa como “headliner”. Qual é o sentimento?
Paul: Cara, isso é o que queremos pra nós! Queremos sair em turnês como cabeça de cartaz, onde é possível tocar um set longo e finalmente escolher os temas que queremos tocar, sem comprometer nossa performance tendo que pensar se essa ou aquela música vai caber no set. Esse é nosso objetivo! Estamos nesse caminho nos EUA, mas admito que na Europa ainda temos trabalho por fazer.

EP: Lembro-me quando vocês abriram pra Lamb of God e Job For a Cowboy aqui na Inglaterra… Tocaram apenas 3 músicas.
Paul: Pois, é isso! Houveram um par de shows que tivemos apenas 20 minutos pra tocar… e acabamos tocando apenas 1 música! É foda pra nós quando se tem um set tão curto, nossas composições são muito longas.

EP: Eu sei bem! Quando tocamos BTBAM no nosso programa (Mondo Metal na Elo FM) temos de muitas vezes recorrer ao primeiro álbum.
Paul: É, realmente aquelas são nossas menores músicas. É uma merda, mas por outro lado não queremos comprometer nossas composições pra aparecer na rádio.

EP: Você disse que BTBAM está um pouco atrasado aqui em comparação a tocar nos EUA. Qual é a maior diferença entre ter a própria turnê aqui e lá?
Paul: Bem, nos EUA as pessoas gostam da gente (rindo). Enquanto na Europa… eles meio que ficam estáticos, olhando a gente tocar.

EP: Tem sido assim em todos os locais que vocês tocaram aqui?
Paul: Não, não! Estou brincando. Alguns shows aqui foram muito bons, a galera interagiu bem. Alguns eles só ficam olhando; mas eles não se vão embora, isso deve ser bom sinal! (rindo). Não sei como explicar, é diferente, a cultura em geral; as pessoas reagem diferentemente com nossa música. As pessoas nos EUA são mais agressivas, talvez.

EP: É também parte da cultura britânica – pegar uma caneca de cerveja e assistir a banda, como uma performance em geral… Não levem isso à mal.
Paul: Cara, ontem a noite particularmente. Onde foi que tocamos? Birmingham! A galera passou o show todo … (fazendo uma cara de quem está apreciando a parede). Eu pensei: “Fodeu, eles não curtem a gente”. Quando acabamos o show eles foram à loucura, gritando, pulando, pedido biz e o cacete. Aí eu vi que eles curtiram a  gente pra caralho! Em geral diria que os Europeus – e os Britânicos – são mais reservados… mais comportados haha.

EP: Vocês eram conhecidos e com certeza mais acessíveis para o público nos EUA no início da sua carreira. Talvez seja uma questão de tempo até que este reconhecimento cruze o oceano.
Paul: Isso, é como se tivéssemos começando novamente quando se trata de Europa. Estamos tentando convencer as pessoas a gostarem da gente, enquanto nos EUA já temos uma base sólida de fãs. Temos de criar uma por aqui.

EP: Vocês vêm da Carolina do Norte (NC). O que surpreende, pois não há uma grande cena pesada no estado!
Paul: A cena é relativamente pequena em NC, mas na real rola uma grande interação entre o grupo de músicos. Há músicos talentosíssimos naquela região. Tudo isso que ajudou a encontrarmo-nos. Somos todos de diferentes cidades e acabamos juntos pela qualidade como músicos que temos.

EP: Em geral os sub-gêneros do metal aparecem em ondas, com um pequeno nicho originado em uma certa região. Os estados vizinhos – Virginia, Georgia – têm suas cenas bem definidas, mas NC não! Me intriga – que tipo de bandas vocês tocaram juntos, em que cena vocês cresceram?
Paul: No começo… havia uma banda em NC chamada Hopes Called. Era uma banda de metal gospel, mas eram nossos amigos. Outra era Code Seven que começou ao mesmo tempo, meio que nos agrupamos com eles. Temos a sorte de estar juntos até hoje, onde a maioria das bandas acabaram. Tinhamos uma boa amizade com The Red Chord, desde o princípio, também The Black Dahlia Murder… fizemos turnês com eles.

EP: Então vocês tiveram de sair além de NC, desde o início.
Paul: Sim, não dá pra ficar prezo em uma região – você não irá a lugar algum se você apenas tocar no seu Estado. Acabaria fazendo shows pra 100 pessoas. Tivemos de sair pra construir nossa carreira.

EP: Vocês sentem o peso desta estrada como uma banda? Mesmo novos vocês já têm 6 álbuns de estúdio, mais um álbum de covers…
Paul: Cara, é tudo uma névoa pra mim, a banda mudou tanto! Quando ouvimos o primeiro álbum, quase soa como uma banda totalmente diferente. Evoluímos tanto, não só musicalmente, mas como uma banda também. Quando você me pergunta assim, eu olho pra trás e nem acredito que somos uma banda por tanto tempo e que temos tanto álbuns! É uma constante evolução, cada álbum uma nova experiência. Continuamos com nosso objetivo desde o início: fazer algo diferente!

EP: Quando vocês olham praquele distante primeiro álbum, vocês conseguiam dizer: “Pô, isso é bom! Temos um futuro com isso”?
Paul: Lá atrás??? Não cara, nunca… nunca imaginamos que chegaríamos ao nível que estamos hoje, nem mesmo à um alto nível. Naquela época, especialmente, este tipo de música não era popular. Se tocássemos pra 100 pessoas já era bom pra caramba! De alguma forma este som se tornou popular com o tempo – metal progressivo em geral – e agente apenas continuou remando a maré. No começo fazíamos por diversão, queríamos estar numa banda, tá ligado?

EP: As bandas sempre procuram evoluir. Mas os fãs sempre amam ouvir as faixas mais antigas, dos primeiros álbuns, que vocês raramente tocam.
Paul: Com certeza. As músicas antigas são parte da história da banda, há um peso diferente e um valor adicionado à elas. Pra mim, se você quer manter uma banda um longo tempo você têm de evoluir. Não se pode gravar o mesmo álbum sempre. Os fãs, assim como os músicos, ficariam cansados. A parada é que não há muita gente que conheça nossos primeiros álbuns.

EP: Vocês gravaram Anatomy Of… um álbum ousado! De alguma forma atingiu um sucesso raro entre a mídia e os fãs, tratando-se de um álbum de covers. Como surgiu a idéia de gravar este álbum?
Paul: A gravadora deu a idéia, e pensamos que seria divertido – realmente, só fizemos por pura diversão! Foi uma boa maneira de gravar sons que talvez a maioria de nossos fãs ficariam surpresos que são uma grande influência pra nós. A maior parte de nossos fãs nunca parou pra ouvir Queen, King Crimson – os mais novos especialmente. Pensamos que seria legal colocar nossa versão nestes temas e ver a reação da galera.

EP: Acredito que a razão maior do sucesso deste álbum é exatamente como vocês conseguiram colocar nitidamente em cada tema a essência do BTBAM… você diria que estes são temas particulares que vocês sempre curtiram, ou realmente artistas e bandas que inspiraram o som do BTBAM?
Paul: Os dois! Somos definitivamente influenciados não só por estes temas, mas por uma tonelada de outros sons e gêneros – este álbum é reflexo disso. Queríamos mostrar para as pessoas: “Aqui está! Sempre curtimos tudo isso…”.

EP: Mas se você ver bem, estes sons são nada técnicos. Me pergunto, quando então vocês decidiram se tornar tão técnicos?
Paul: Cara, honestamente eu não acho que somos assim tão técnicos quanto as pessoas pensam. Eu diria que somos complexos sim… e o motivo para o qual somos tão complexos é pela influência que temos, também pelo fato que nossas composições têm 15 minutos; e conseguimos comprimir muitas idéias diferentes nestes 15 minutos. Se você pegar algumas das nossas composições originais e quebrar em partes, você então notará claramente as diferentes influências de todas essas bandas que fizemos a cover. A palavra “técnico” é usada muito freqüentemente. Pra mim nosso som é complexo e experimental! Quando penso em técnico, penso em algo como Dillinger (Escape Plan).

EP: Depois veio Alaska, e uma banda com diferentes membros. Este foi o álbum responsável por colocar vocês nos holofotes, não só nos EUA, mas foi quando a mídia e fãs abraçaram BTBAM na Europa. A produção e conceito das composições atingiram um novo patamar. Foi este o álbum da virada?
Paul: Sim, em muitos sentidos! Como você disse, novos membros, e finalmente sentimos que tínhamos um conjunto sólido de músicos talentosos que estariam na banda por um bom tempo. Quando lançamos o álbum as coisas começaram a acontecer, as pessoas começaram a nos conhecer. Ganhamos mais exposição, e até hoje Alaska é o primeiro álbum que as pessoas nos ouvem – conhecem-nos de Alaska pra frente.

EP: Profissionalmente também a banda deu um salto.
Paul: Definitivamente. Começamos a ter turnês mais descentes e vender álbuns. A mídia começou a se importar com a gente. Foi um álbum muito importante para nós.

EP: Alguma razão em particular para a saída de 3 membros de uma vez?
Paul: Nem tanto… é uma situação bem típica de novas bandas. Quando passamos dos 20 as pessoas começam a pensar “Cara, é foda fazer grana com isso!”. Querem ter um emprego normal, casar, sei lá! As pessoas crescem e mudam, se ligam que não têm mais tempo para a banda ou não suportam as turnês – aí as bandas quebram! Nós decidimos continuar. Estou grato que continuamos!

EP: Alaska deu o caminho, mas daí Colors veio e, na minha opinião este é o álbum que define BTBAM. Diria que é um pacote completo: um álbum com um conceito definido – uma música de 1h dividida em temas e cores, cada uma com suas devidas ilustrações, um DVD ao vivo com a performance completa do álbum, um website dedicado com diferentes visões e interpretações da banda e fãs… Isso tudo aconteceu meio que ocasionalmente ou foi algo que vocês sempre quiseram fazer?
Paul: Tenho de concordar que realmente foi um álbum monumental, o tipo de trabalho que definiu nossa carreira. Alaska foi o primeiro com os novos caras, ainda estávamos a procura de certa química. Colors foi diferente; sabíamos o que queríamos, que tipo de banda queríamos ser. Queríamos produzir esse pacote completo – a vibe do “álbum de uma música”, com a produção e o visual todo. Queríamos meio que achar nossa maneira de nos separar de outras bandas de metal na nossa categoria ou gênero. Desde então esta é a direção que estamos tomando; neste sentido Colors é muito importante.

EP: E como surgiu a idéia do Colors como um álbum temático?
Paul: Logo após tocarmos o Ozzfest nos EUA… este festival é muito típico metal. Fizemos o verão todo tocando Ozzfest e não curtimos nada! Não é o que somos – não é o que nos pintamos como uma banda! Então decidimos fazer algo completamente diferente.

EP: Parallax: The Hypersleep Dialogues foi lançado há pouco tempo, pela Metal Blade. Qual o motivo da mudança de gravadora?
Paul: Nosso contrato com a Victory Records expirou, e decidimos não renovar, procurar uma nova direção. Não achamos que fazíamos mais parte daquilo, as bandas que eles estavam assinando não são o tipo de banda que queremos nos associar. Falamos com alguém da Metal Blade, logo vimos que eles estavam na mesma sintonia, e rolou! Foi de longe a melhor decisão que tomamos, tem funcionado muito bem.

EP: E por que um EP?
Paul: Queríamos lançar algo com a Metal Blade rapidamente, pra meio que dar o pontapé inicial numa nova fase da nossa banda. Ao mesmo tempo, nunca iríamos sacrificar qualidade por rapidez… aí pensamos “Hey, nunca lançamos um EP, bora nessa?!”

EP: E assim como Colors e The Great Misdirect, vocês mantiveram a onda do “álbum de um tema”…
Paul: Yeah, é definitivamente feito para ser apreciado como uma obra completa, do início ao fim!

EP: Você acredita que a música pesada está crescendo como gênero?
Paul: É difícil dizer porque CD’s não vendem mais… é sério! Não só no metal, mas em qualquer gênero, a não ser rap e sertanejo (country). Quanto à cena em sim, acho que voltou a ser algo bacana. Hoje em dia é massa ser um bom músico – um guitarrista foda, um baterista animal… as pessoas hoje apreciam e reconhecem qualidade musical, é algo popular! Assim você consegue ter mais pessoas que vêm para os shows, mais pessoas pesquisando a internet para ver esse ou aquele artista. Com certeza há um crescimento na popularidade do gênero, algo que eu não esperava. Adiciona um certo valor.

EP: Certamente há mais festivais de música pesada, mas eu pouco imagino BTBAM tocando em festivais…
Paul: É cara, é foda pra nós tocar em ambiente de festival; é difícil causar um impacto. Temos 30 minutos pra tocar, aí tentamos fazer algo épico no meio do dia, num palco aberto onde não soa bem particularmente. Por isso preferimos tocar em qualquer clube, nosso próprio show. Mas cara, as vezes temos de fazer festivais, é parte da cena como você disse, além de levaram uma grande massa.

EP: A exposição compensa de certa forma…
Paul: Exatamente! Na real não podemos dizer não quando recebemos uma proposta para um grande festival, mesmo que particularmente não gostamos de tocá-los. Pra dizer a verdade, duvido que a maioria das bandas gostem… apenas é bom para nossas carreiras.

EP: BTBAM tocou na América Latina, Porto Rico e México… houveram em algum momento ofertas para tocar na América do Sul?
Paul: Não… vamos tocar na América do Sul um dia; mas será algo pequeno. Gostaria de tocar lá mas os custos de logística são tão altos que será difícil. Iremos quando conseguirmos cobrir estes custos.

EP: Mas você tocou com Lamb of God na turnê deles pela América Latina. Como foi?
Paul: Ah, eles são meus manos de Virgínia. Mark (guitarrista do Lamb of God) teve filho e eu cobri ele. Mas Lamb of God é gigante! Apesar de ser a primeira vez que eles pisaram na América do Sul, tocaram pra milhares de pessoas, casas lotadas – foi foda! Se fosse o BTBAM não teria mais 100, 200 pessoas talvez.

EP: Algum desses lugares ou shows que você curtiu mais?
Paul: Curti muito a Argentina! Mas todos lugares foram massa. Colombia, Venezuela… mas o melhor foi mesmo Argentina e Brasil. Saímos a noite em São Paulo, cidade grande! Foi divertido.

EP: Mudando de assunto, uma coisa que é curioso sobre BTBAM é a bandeira que vocês carregam sobre o orgulho de serem vegetarianos. O Dustie é o único que não é vegetariano na banda?
Paul: Na verdade somos 3 vegans, e 2 comedores de carne. Blake meio que vai e volta (risos).

EP: Como vocês ainda não conseguiram convencê-los a unir o grupo dos vegans?
Paul: Cara, eles não têm compaixão… são uns zumbis desalmados! Tô brincando… não, não estou! São pessoas horríveis mesmo. (a banda toda cai em gargalhada).

EP: Vocês também são careta (straight-edge), não são?
Paul: Outra vez, nós três vegans também somos straight-edge.

EP: Todos os três? Então de onde essa criatividade toda vem?
Paul:  Criatividade? Não é criativo ser straight-edge??? (gargalhada). Não sei, cara… somos apenas carinhas normais do hardcore das antigas, e toda essa parada de ser vegan e careta era popular na época que começamos a curtir música pesada, havia muita matéria sendo escrita e distribuída sobre o veganismo e sobre ser straight-edge. Adotamos este estilo de vida e assim nos mantemos até hoje.

EP: O estilo do BTBAM, dado a complexidade das composições, é difícil de descrever. Quando me pergunta eu me limito a dizer que é uma banda que te faz cafuné só pra pegar sua cabeça e tacar na parede… Você teimaria em tentar descrever seu som?
Paul: Ah velho, é difícil de descrever! Eu apenas digo que é música pesada e experimental. Não gosto de usar o termo “heavy metal”, pois pra mim pertence à bandas como Lamb of God, Pantera. O termo progressivo é muito usado também. Somos uma banda pesada que não temos receio de nos aventurar em diferentes territórios – provar sonoridades diferentes.
Tomy G. Rogers: Somos químicos!
Paul: Yeah, químicos do metal! (rindo).

EP: Tommy, você é  principal compositor das letras do BTBAM, as quais são geralmente abstratas mas com um apelo filosófico por detrás delas: vidas paralelas, renascimento, o ser humano e seu papel no globo, o mundo como um organismo vivo… isso vêm de alguma crença ou religião?
Tommy: Não necessariamente. A parada entre eu e minhas letras é que eu apenas escrevo quando a inspiração chega. Como compor música – se você forçar, irá soar forçado… aí você olha pra trás e não se sentirá orgulhoso do que fez. Quanto ao significado, acredito que seja apenas minha visão natural enquanto me maturo como homem. No metal parece que é tudo muito do mesmo quando se trata de letras. Eu apenas tento colocar meu toque nas coisas e tentar fazer o mais único possível. Quando ouço nosso som, muitas imagens me vêm à cabeça – é quase como assistir a um filme. Eu parto daí, e tento fazer as letras condizerem com o som.

EP: Pra terminar, gostaria de fazer uma pequena jornada pelos seus álbuns. Numa frase – ou palavra – gostaria que vocês dissessem o que vêm à cabeça quando vocês pensam em… (entregando uma cópia do:)

- BETWEEN THE BURIED AND ME (Self Titled)
Tommy: Atropelado!
Gravamos o álbum todo em 5 dias… loucura.

- THE SILENT CIRCUS
Paul: Mark peladão! (antigo baterista)
Tommy: Haha… ele passou o tempo todo pelado. Também foi a primeira vez que gravamos num estúdio de verdade.

- ALASKA
Tommy: Desastre!
Paul: Põe desastre nisso! Aliás um fato pouco conhecido… esse álbum foi quase arruinado e totalmente perdido. Após gravar todos os instrumentos, íamos começar as mixagens da bateria e o som tava todo fodido! Tivemos de regravar tudo do começo. Foi foda!
Tommy: Não só a bateria, cara! Meus “takes” também foram pro espaço.. e muito mais. “Beira do abismo” é uma maneira boa de descrever haha…
Paul: Pode crer, não lembrava disso. Stress do cacete!

- COLORS
Paul: Sossegado…
Tivemos muito trabalho com este álbum, mas estávamos muito afinados e foi realmente muito sossegado. Vamos dizer “Bem preparados para tal” (Tommy ola de rir).

- THE GREAT MISDIRECT
Paul: “Muito bem preparados para tal” ahhahaha
Cara, tudo que me lembro é que estávamos lá no estúdio e do nada tínhamos um álbum, como uma engrenagem bem lubrificada. Foi sopa! Eu descreveria então como “Engrenagem bem lubrificada…”

- THE PARALLAX
Paul: Frio!
Gravamos esta álbum em Toronto, Canadá, no meio do inverno e tava muito frio.
Tommy: Um pouco corrido também… tivemos 7 dias apenas pra gravar tudo.
Paul: Mas se tratando de um EP, não foi tão mal… foi sopa! Vamos dizer “Um prato de sopa vegan”!

 

ENTREVISTA: Evile

MONDOMETAL: ETREVISTA COM EVILE
Londres, 29/09/2011
Relentless Garage

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Show de Lançamento do Five Serpent’s Teeth

Eduardo Piloni: Quando se ouve a história do Evile até soa como um conto de fadas. Uma banda sem contrato, toca num palco secundário do Festival Bloodstock, conseguem um contrato com uma grande gravadora, lançam o primeiro álbum e já saem em turnê com bandas que provavelmente eram fãs desde criança: Megadeth, Exodus e Machine Head… Olhando pra trás, como vocês se sentiram?
Ben Carter: De certa forma éramos apenas crianças naquela época, quer dizer, ainda somos crianças! Pra gente foi tipo “Porra é o Megadeth! Dave Mustaine ali, andando nos corredores do backstage com agente”… foi meio bizarro. Nós ganhamos experiência, sinto que éramos bastante ingênuos quanto à industria toda, assim sendo que ter uma turnê inteira tão grande quanto aquela no primeiro ano era inimaginável. Aprendemos muito em como nos conduzir no backstage e como nos apresentar no palco. Nos fez muito mais profissionais. Tanto que logo em seguida já saímos em nova turnê com Exodus. Hoje somos chamados para os principais festivais do país – Download, Sonisphere, tudo graças à como começamos nossa carreira.

EP: E essas grandes bandas foram receptivos e positivos para com vocês?
Ben: Com certeza! A experiência deles meio que passou pra gente, facilitou muito nosso trabalho. Sempre nos fizeram sentir a vontade em ambas as turnês, mesmo estando a um nível tão superior. Foram 6 semanas de intenso aprendizado.

EP: Acho que o som que vocês tocam facilitou a inserção da banda dentro do nicho exclusivo do thrash metal oitentista. Mesmo sendo novos, e desde o primeiro instante do primeiro álbum, Evile traz um ar dos anos 80, o espírito, a pegada…
Ben: Pois é, eu acho que isso é muito bom! Tem pessoas com 40, 50 anos que vem apertar nossa mão e dizer  “obrigado!”. Tipo… por quê?  “Vocês fizeram eu me sentir com 15 anos novamente”. Ah, pra mim isso é missão cumprida.

EP: E vocês nem são dessa geração pra soar tão anos 80.
Ol Drake: Eu sou o mais novo, com 27 anos. Não somos novos, mas também não somos velhos.
Ben: O que eu curto mais do thrash é que sempre te faz sentir cheio de energia. E se conseguimos fazer pessoas que ouvem thrash por mais de 25 anos sentirem-se com 15 anos e cheio de energia novamente – trabalho feito! É isso mesmo que queremos, que quem escute fique cheio de gás, energia até o topo e que solte tudo no mosh pit.

EP: Vocês também tiveram um par de grandes turnês nos EUA. Gama Bomb, Kreator, Overkill. Extensos kilometros, não?
Ben: Putz… nem me fale! 40.000km acho que foi! E aqui encontramos pessoas reclamando ter que entrar num ônibus por meia hora…
Ol: É que na América a ética das turnês em sí é tão diferente por conta da extensão do território. Todas as bandas por lá estão acostumadas a ter que dirigir por 10, 15 horas pra chegar no próximo show e tocar 20min, enquanto na Inglaterra carinhas não viajam 2h sem chorar. Isso nos deu um bom tapa na cara. Não é apenas o fato de ter que viajar tanto, mas o nível de trabalho e profissionalismo é potencializado 10 vezes quando se está na América. É difícil e penoso fazer turnê por lá.

EP: E qual foi a resposta do público?
Ben: Acho que foi bom, acredito que eles conseguiram nos engolir! (risos)
Ol: Bem, no começo, como somos Ingleses e eles não conheciam muito, deu pra notar que eles ficaram meio que olhando desconfiados numa tipo “não estou nem aí…”. Mas um mês depois fizemos uma nova turnê pelo mesmo circuito e notamos que as mesmas pessoas que estavam “nem aí” já tinham nosso álbum, camiseta e vinham pra gente “E ai, pô curto muito seu som!”. Parece que cada vez que passamos por lá vai ficando melhor.
Ben: As pessoas tendem a levar um tempo pra entender a gente. Não estamos presos restritamente ao thrash old school, mas também estamos distantes da nova escola – estamos meio que presos no meio, algures, acho que somos um pouco únicos nesse sentido.

EP: Pois é, nota-se isto principalmente com Infected Nations, segundo álbum, que atingiu o top 100 em UK. Uma sonoridade diferente, com mais diversidade, um outro lado da banda – mais técnico você diria?
Ben: Bem, nosso produtor disse que nós gravamos o álbum número três antes do segundo (risos). Saímos de um thrash puro pra começar este thrash meio prog, complicado, parece que ficou faltando um álbum de virada pelo caminho! O que acontece é que escrevemos nossas músicas muito cedo em nossa carreira, alguns temas do Enter the Grave (primeiro álbum) foram escritos 4 anos antes do álbum ser lançado, e já com o Infected Nations rolou de colocarmos toda nossa criatividade pra fora e ver o que iria nos trazer. Sei que alguns dos fãs antigos estranharam de princípio, mas a maioria gostaram; talvez forçamos um pouco a barra com esse álbum mas a verdade é que nos abriu a cabeça e nos guiou o caminho até o Five Serpent’s Teeth.

EP: Com certeza, vê-se que há uma conexão natural entre os dois álbuns. Agora, como rolou de conseguir o lendário Michael Whelan (autor do cover art de Beneath the Remains, Arise , Chaos AD e Roots do Sepultura, além de Obituary e Stephen King) pra fazer a arte?
Ol: Cara, começou tudo como uma piada entre eu e meu irmão (Matt)! Estavamos ouvindo Beneath the Remains e eu brinquei que eu ia ligar pro Michael Whelan pra fazer nossa arte também. Ele tirou o maior sarro de mim, e aí eu pensei “por que não?”. Então eu mandei um email pra ele, falando sobre nosso novo álbum, que eu tinha esse conceito e que conseguia visualizar a arte dele pro álbum, e ele respondeu “Yeah, tô nessa!”. Mesmo dizendo que somos uma banda pequena, que provavelmente não tínhamos grana suficiente pra arte dele como Stephen King, ele topou fazer dentro do nosso mísero orçamento porque ele curtiu o projeto (rindo).

EP: Os festivais de metal são cada vez mais abundantes. Sendo uma banda estabelecida no fim da década de 2000 e crescendo a cada álbum, vocês sentem que a música pesada está novamente crescendo em geral?
Ben: Certamente, a vibe está muito boa novamente. O problema é que o metal foi meio que degradado por estes sub-gêneros que vieram entre os anos 90 e começo de 2000.
Ol: Poo* Metal hahaha
* poo = cocô, pronuncia-se pu, fazendo referência ao nu metal dos anos 90.
Ben: E muitos outros gêneros de música pesada que tiraram a atenção da mídia e empurrou o metal pro underground, mesmo com as bandas ralando pra cacete pra sobreviver. Cinco, seis anos atrás acho que o metal ganhou uma nova força. É muito massa ver as bandas que começaram isso tudo ainda tocando, ralando em turnês fazendo o maior número de shows possível, o que acaba mantendo a porta aberta pra bandas como a nossa, tá ligado? Nós ainda olhamos pra eles como ídolos, e posso dizer que o que eles fazem hoje ainda acaba nos guiando.

EP: Verdade, mas imagino que ainda é difícil de extrair dinheiro deste mercado e fazer uma vida apenas disso.
Ben: Pode crer, extremamente difícil! Algumas pessoas pensam que temos tudo na nossas mãos quando lançamos um álbum, que estamos feitos. Não é assim, é apenas mais um degrau que subimos de uma longa extensa escada, cheia de degraus pra serem ultrapassados. No meio do caminho, o dinheiro se torna um problema, mas quando se ama o que se faz, não se questiona.
Ol: Pois é, fazemos a música que amamos, mas se tivermos de fazer isso desta maneira por mais três álbuns por exemplo, não será possível. Não podemos pra sempre dedicar nossa vida para gravar álbuns, sair em turnês sem fazer lucro, voltar pra casa quebrado e não conseguir nem pagar as contas.
Ben: No começo é muito do caralho, mas temos noção que não somos mais crianças. Estamos em um estágio das nossas vidas em que temos de cuidar do nosso futuro, e fica tudo muito mais difícil quando se trabalha numa indústria que te paga como se você ainda fosse aquela criança, que espera que você se sinta bem em apenas poder tocar e viajar o tempo todo as vezes até sem parar pra almoçar… e quando chegamos em casa, temos nossa vida batendo na porta e temos que pagar pra viver. Aí falamos pra nós mesmos: “Merda, não podemos viver assim pra sempre”.

EP: Na outra mão, hoje é dia do show de lançamento do mais novo álbum – Five Serpent’s Teeth. As críticas têm sido extremamente positiva, alguns meios colocando a tocha do metal em vossas mãos. Vocês acham que este podem ser o vosso momento?
Ol: Cara, eu não penso nisso. Não somos pessoas que queremos ser ricos, saca? Estaremos bem se este pudermos viver fazendo isso – sair em turnê, fazer nosso trabalho, voltar pra casa e estarmos bem, confortáveis!

EP: Hoje é um dia feliz para vocês, não vou prolongar uma conversa que traz forte lembranças, mas eu gostaria de saber, após o que aconteceu com Mike Alexander (baixista original que morreu durante turnê européia em 2009), o quão importante foi a ajuda de todas as bandas e personalidades para manter o Evile?
Ol: Eu realmente acredito que não conseguiríamos passar por esta barra e continuar fazendo nosso trabalho como fazemos hoje sem a ajuda destas bandas. Tivemos caras como Ozzy Osbourne, Metallica chegando pra gente tipo “Toma aqui estes ítens pra vocês leiloarem e arrecadar fundos!”.
Ben: E Slayer, Exodus, Anihilator! Bandas que nunca ouvimos falar entraram em contato com a gente, seja pra enviar os sentimentos ou pra nos ajudaram a divulgar o leilão. É incrível a atmosfera e o sentido de ajuda que existe no thrash principalmente e no metal em geral, duvido que exista tal semelhança em e qualquer outro gênero. No momento de dificuldade, todos se uniram e nos tiraram do abismo, seremos eternamente gratos!
Edu: Verdade, todo metaleiro – seja músico ou não – é também um eterno fã, e isso faz a diferença.
Ben: É isso mesmo.

EP: Vocês lançaram também há algumas semanas um cover para uma revista, parte de um tributo ao Nirvana. Lounge Act foi a faixa escolhida, e você Ben conseguiu meter um pedal duplo na batera de Dave Grohl?!
Ben: Hahaha o que mais poderia fazer? Quanto à faixa, é um som bem definitivo no álbum deles, meio que separa o álbum em diversas formas… tenho certeza que os outros caras sabiam o que fazer com o baixo ou guitarra mas quando se fala de batera de grunge, como se pode fazer algo que já soa sujo prá caralho ainda mais sujo? Pedal duplo! (gargalhando)

EP: Musicalmente falando, pra quem conhece Evile o sentimento que passa é que vocês tiveram quase que desaprender a tocar pra fazer aquela cover. Fala sério, vocês conseguem tocar Nirvana até a caminho do banheiro, não?
Ol: Haha cara, não é bem assim! Pô eu até curto a linha de baixo daquela música (fazendo uma cara que não acredita no que disse). Sem faltar respeito ao Kurt Cobain, mas são aqueles acordes dele que ele ama demais e como guitarrista é meio aaaarghhh… então falei: “vou meter um riffão aqui só pra fazer mais metal”!
Edu: Pois é, eu notei, ia perguntar o que se passou ali…
Ol: hahaha… Funcionou!

EP: Mas como uma banda de thrash metal, vocês não ficaram com um pouco de receio de tocar Nirvana, onde uma massa ainda culpa o grunge por quase arruinar a onda do metal nos anos 90?
Ben: Quem nos conhece sabe que não temos medo de fazer algo fora do padrão, completamente diferente. Desde o início temos como princípio que a banda tem de evoluir sempre, não podemos fazer a mesma coisa em 5 álbuns. Isto seria como estagnar na carreira, nadar contra a corrente – não é algo que acontecerá com Evile.
Ol: Funciona com AC/DC, não com a gente.
Ben: Pois é, temos de ir pra frente. Se alguém bate um fone e pergunta se podemos fazer uma cover para um álbum tributo – tamos nessa! É algo novo, fresco e a enquanto pudermos fazer isso da nossa maneira, como amamos e tocamos, aí podem contar com a gente.
E se alguém ousar vir pra nós e dizer que não somos mais thrash, bem… eu mando eles ouvirem Enter the Grave! Somos a bada que gravou aquele álbum! Ainda temos a mesma pegada em nós.

EP: Agora vocês estão há apenas algumas horas de oficialmente lançarem o novo álbum aqui em Londres. Dá pra ver a satisfação e alegria que vocês estão sentindo. Como foi a jornada do Five Serpent’s Teeth – estúdio, gravação e agora turnê de lançamento?
Ol: Fantástico! Desde que terminamos Infected Nations eu já comecei a escrever riffs. Foram dois anos de trampo, intenso -  e hoje olhando pra trás esse processo todo é como uma névoa, tudo se mistura em uma só coisa. Agora é tipo: “WOW” todo o trabalho será mostrado.
Ben: Foi realmente muito esforço colocado em ensaios e escrevendo música com e sem a banda que quando chegamos no estúdio pra gravar conseguimos fazer tudo muito rápido. Isto também aumenta nossa confiança de subir no palco e fazer o mesmo ao vivo, só temos de ultrapassar essa ansiedade, só quero estar lá em cima, tocando as músicas pra galera ouvir.
Ol: Tipo meio que gritando dentro de nós em expectativa “Curtam isso… vocês vão curtir o som!”.

EP: Ansiosos?
Ben: Eu pessoalmente estou muito nervoso hoje! Não que eu não saiba o que estou fazendo, mas é pra mim o começo de uma nova era para o Evile.

EP: Uma nova era… orgulhoso por chegar até aqui como chegaram?
Ben: Com certeza, estou realmente muito orgulhoso do que fizemos! É que ainda é muito recente, e é apenas um sentimento de expectativa sobre como vai soar ao vivo e qual vai ser a resposta do público. Uma vez que estivermos lá em cima do palco, tudo isso fica pra trás.

EP: Fique tranquilo. A passagem de som foi perfeita e tenho certeza que também será no show. In Memoriam (música dedicada à Mike Alexander) estará neste show?
Ol: Hoje não! Estamos orgulhosos de ter escrito este tema, amamos o resultado final e tudo o que significa, não só para nós mas para todos que algum dia já perderam alguém na vida. Apenas terá de ser um momento mais propício pra tocar esta música. Quando for uma massa maior que podemos fazer um set mais variado talvez. Se tem 500 pessoas gritando por thrash e os riffs rápidos que estão acostumado com Evile, não acho que cairá bem tocar uma “balada”.

EP: Mesmo com todos os fãs sabendo o significado da música?
Ol: Pois é, eu não quero que as pessoas tenham de ouvir a música e entrar na vibe tipo: “Ah é pro Mike, vamos entrar na onda…”. Não rola, vamos tocar quando for o momento certo, é um tema contemplativo – tem se der apreciado com mentalidade certa, da maneira certa. Realmente acredito que não seja um tema pra um show de thrash metal, mas isso não que dizer que em um par de anos não fará parte do nosso set-list. Não agora.
Ben: Verdade, quando tiver pessoas suficientes que se importam com a banda e tudo o que o tema tem pra dizer, sim, será meio que uma norma no nosso set-list.

EP: Beleza, muito boa sorte daqui a pouco e vejo vocês da roda!
Evile: Valeu Eduardo e Mondo Metal, muito obrigado!


 

Live Review: EYEHATEGOD + Church of Misery @ Camden Underworld, London

All photos by Eduardo Piloni (c) Mondo Metal. All external use must be communicated.

Camden Underworld, Londres, 26 de Junho

Domingo que é bom vem devagar, acompanhado de uma boa cerveja, amigos e música alta. E pra celebrar o dia mundial da “porranenhumisse” – após um sábado negro de riffs matadores do XII London Deathfest-, nada melhor que um dia de sludge e stoner metal fechando o final de semana no The Underworld em Camden. Os encarregados da nada árdua tarefa foram Church of Misery e EYEHATEGOD, como parte da turnê “Re-tox and Nihilism Over Europe” que passou por 13 países.

Os Japoneses de Church of Misery, banda de Tókio e um dos maiores expoentes do gênero no país, conseguiram a proeza de trazer positividade a um som obscuro de letras sombrias, que lidam com serial-killers e massacres. Culpa disso é o carisma e entrega do vocalista Yoshiaki Negishi que não parou um minuto no palco, e conseguiu arrancar sorrisos de todos, inclusive da imprensa e fotógrafos que se alinhavam para ver o show do backstage. Yoshaki esteve com a galera, recebeu de braços abertos os que ao palco lhe visitavam, e os refrões eram cantados por quem quisesse se aventurar no crowd surfing. A banda se mostrou em grande sintonia, e o seu sludge com tons psicodélicos agradou. Entre poucas palavras com um inglês não tão fluente, despediram-se com muita gratidão e reverência, e a recíproca veio do publico entre muitos aplausos.

Roadies em cena e os PA’s tocavam o melhor do jazzy-blues de New Orleans (NOLA).
EYEHATEGOD demonstra naturalmente o orgulho no peito do simples fato de ser de Nola; na atitude – não apenas como músicos – mas na maneira de viver a vida. Como o caricato vocalista Mike Williams diz: somos do sul, de New Orleans, e tocamos como vivemos, vivemos como trabalhamos… lento e pesado!

Nola é a capital do Sludge Metal mundial, com bandas como Crowbar, Down, Soilent Green, Kingdom of Sorrow, e claro, EYEHATEGOD que merece créditos como um dos, senão o grande precursor do gênero. É muito normal e quase que universal a troca de membros ou criação de projetos paralelos entre a comunidade sludge de Nola. Maior exemplo sendo Jimmy Bower, guitarrista do EYEHATEGOD e do Superjoint Ritual, também baterista do Down – que aliás tem presença confirmada para o dia 14 de Novembro no festival SWU que acontece aí no Brasil. Será a primeira apresentação deles em terras brasileiras e aqui eu deixo minha dica!

Quando todos os membros estavam já sobre o palco, Mike Williams deposita sua garrafa de Vodka perto da bateria, que viria a ser degustada no gargalo durante toda a apresentação. Enquanto a banda se sentia confortável com o palco e todos se cumprimentavam como se estivessem pra começar um jogo da NFL, Mike entretém o público com piadas esdrúchulas e até arrisca uma sátira cantando um blues acompanhado pelo baixista Gary Mader. O público grita “EYEHATE GOD EYEHATEGOD” e Mike imenda: “Por quê?… Ele não existe”.

Em clima de grande descontração, uma tiete ganha espaço, saindo do backstage. Embreagada ela rouba o pedestal de Mike e grita algo sem sentido. A banda, meio que sem saber o que fazer, manda ela fazer um stage dive, enquanto o público pede para ela tirar a blusa. Nem um nem outro, o segurança leva a garota para o backstage, não sem antes ser escrachada por Mike Williams.

Distorção e microfonia… quem conhece EHG sabe que esse é um sinal de que o som está pra começar. A reprodução ao vivo, entretanto, é perturbadora… o zunido intenso leva-nos até a descrença que aquilo realmente esta acontecendo. Nada breve, estende-se por minutos sem fim, e todos os membros preparados e olhando para o baterista Joey LaCaze se perguntam: “E aí?! Qual vai ser?”. EHG não toca com set-list e cada tema vem como surpresa… até para a própria banda!

Sister Fucker Pt.1 abriu o concerto e daí pra frente a freqüência do baixo e a afinação gravíssima das duas guitarras tomaram conta do Underworld. O som, muito alto e a bateria bem microfonada, traziam toda a melancolia caótica no melhor de EHG. Brian Patton cresceu junto com o som, e o trio da frente formado por figuras muito diferentes – Mike, Brian e Jimmy – se completaram. Mike tem uma postura única no palco, ele e seu pedestal que por inúmeras vezes atingiu o teto baixo do sombrio Underworld. Brian está sempre envolvido com algum outro artista, segurando a vibe do som, e Jimmy, para além das linhas lentas e pesadas, é dentre todos um fã que está em cima do palco. Ao fim de cada tema ele é o primeiro a bater palma pros próprios caras e quase que invariavelmente puxar o próximo som.

Sem um setlist pré definido – marca da banda de ir com o flow do show – fica muito complicado lembrar quais foram os temas tocados, mas pra quem ta assistindo é impressionante a diferença que faz no desenrolar do show. Como se a banda tocasse sempre o som certo pr‘aquele momento. Algumas faixas sempre marcam mais o show, como New Orleand is the New Vietnam e a inconfundível Dixie Whiskey. Em meio ao show, quem aparece novamente ao palco? A doida embreagada… mas desta vez Mike não perdoa! Após mostrar os peitos pra galera, Mike da-lhe um safanão que lhe manda pra roda “Good bye, b*tch!“.

Infelizmente ela não seria a única perturbação ao show… já na segunda metade, o amplificador do baixo pediu água. Técnico de som no palco, mais piadas e estórias do fantástico mundo de Mike. O problema não durou muito para ser arrumado. Também não tardou a retornar. Mais dois sons – Story of the Eye / Southern Discomfort – e o amp caiu novamente. Impossível explicar a vibe que estava naquele local. A banda não fez firula e enquanto o técnico suava para arrumar o prejuízo, Mike aproveitou e iniciou um parabéns em ritmo doom para o baterista LaCaze! Brinde de Vodka e o show continua. White Nigger e a fantástica Jack Ass in the Will of God foram outras duas músicas tocadas antes que o amp realmente acabasse com a paciência dos caras.

Mike se mostrou meio frustrado com a situação, enquanto Jimmy berrava: “Não páre pô, vamos tocar, vamos!!! Toca essa porra!” Era esse o clima do Underworld, mesmo com mais de 1h de show, ninguém queria parar. E verdade seja dita… as guitarras e seus tons pulsantes são tão graves que daria perfeitamente para continuar o show sem o baixo. Aposto que mais da metade do publico nem notou a falta do instrumento. De qualquer maneira, Gary estava ali pra tocar e não queria ficar de mão abanando. O publico mostrou um grande apoio, e enquanto Mike e Joey deitavam a vodka, Brian tomou a iniciativa de pegar um outro amplificador que estava no backstage, provavelmente do Church of Misery, e trouxe correndo pro palco – trabalho rapidamente executado.

Um final de show caótico que estranhamente muito tem a ver com toda a vibe da banda – desprendida, descompromissada e diversão acima de tudo. Após o show, alguns membros ficaram pelo palco cumprimentando os fãs que não os deixaram. Mike despediu-se agradecendo a um show memorável. Idem!

 

Kite Racing / PKRA World Tour – Brazil

 

Kite Masters – Portimão 2009