MONDOMETAL: ETREVISTA COM EVILE
Londres, 29/09/2011
Relentless Garage
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Show de Lançamento do Five Serpent’s Teeth
Eduardo Piloni: Quando se ouve a história do Evile até soa como um conto de fadas. Uma banda sem contrato, toca num palco secundário do Festival Bloodstock, conseguem um contrato com uma grande gravadora, lançam o primeiro álbum e já saem em turnê com bandas que provavelmente eram fãs desde criança: Megadeth, Exodus e Machine Head… Olhando pra trás, como vocês se sentiram?
Ben Carter: De certa forma éramos apenas crianças naquela época, quer dizer, ainda somos crianças! Pra gente foi tipo “Porra é o Megadeth! Dave Mustaine ali, andando nos corredores do backstage com agente”… foi meio bizarro. Nós ganhamos experiência, sinto que éramos bastante ingênuos quanto à industria toda, assim sendo que ter uma turnê inteira tão grande quanto aquela no primeiro ano era inimaginável. Aprendemos muito em como nos conduzir no backstage e como nos apresentar no palco. Nos fez muito mais profissionais. Tanto que logo em seguida já saímos em nova turnê com Exodus. Hoje somos chamados para os principais festivais do país – Download, Sonisphere, tudo graças à como começamos nossa carreira.
EP: E essas grandes bandas foram receptivos e positivos para com vocês?
Ben: Com certeza! A experiência deles meio que passou pra gente, facilitou muito nosso trabalho. Sempre nos fizeram sentir a vontade em ambas as turnês, mesmo estando a um nível tão superior. Foram 6 semanas de intenso aprendizado.
EP: Acho que o som que vocês tocam facilitou a inserção da banda dentro do nicho exclusivo do thrash metal oitentista. Mesmo sendo novos, e desde o primeiro instante do primeiro álbum, Evile traz um ar dos anos 80, o espírito, a pegada…
Ben: Pois é, eu acho que isso é muito bom! Tem pessoas com 40, 50 anos que vem apertar nossa mão e dizer “obrigado!”. Tipo… por quê? “Vocês fizeram eu me sentir com 15 anos novamente”. Ah, pra mim isso é missão cumprida.
EP: E vocês nem são dessa geração pra soar tão anos 80.
Ol Drake: Eu sou o mais novo, com 27 anos. Não somos novos, mas também não somos velhos.
Ben: O que eu curto mais do thrash é que sempre te faz sentir cheio de energia. E se conseguimos fazer pessoas que ouvem thrash por mais de 25 anos sentirem-se com 15 anos e cheio de energia novamente – trabalho feito! É isso mesmo que queremos, que quem escute fique cheio de gás, energia até o topo e que solte tudo no mosh pit.
EP: Vocês também tiveram um par de grandes turnês nos EUA. Gama Bomb, Kreator, Overkill. Extensos kilometros, não?
Ben: Putz… nem me fale! 40.000km acho que foi! E aqui encontramos pessoas reclamando ter que entrar num ônibus por meia hora…
Ol: É que na América a ética das turnês em sí é tão diferente por conta da extensão do território. Todas as bandas por lá estão acostumadas a ter que dirigir por 10, 15 horas pra chegar no próximo show e tocar 20min, enquanto na Inglaterra carinhas não viajam 2h sem chorar. Isso nos deu um bom tapa na cara. Não é apenas o fato de ter que viajar tanto, mas o nível de trabalho e profissionalismo é potencializado 10 vezes quando se está na América. É difícil e penoso fazer turnê por lá.
EP: E qual foi a resposta do público?
Ben: Acho que foi bom, acredito que eles conseguiram nos engolir! (risos)
Ol: Bem, no começo, como somos Ingleses e eles não conheciam muito, deu pra notar que eles ficaram meio que olhando desconfiados numa tipo “não estou nem aí…”. Mas um mês depois fizemos uma nova turnê pelo mesmo circuito e notamos que as mesmas pessoas que estavam “nem aí” já tinham nosso álbum, camiseta e vinham pra gente “E ai, pô curto muito seu som!”. Parece que cada vez que passamos por lá vai ficando melhor.
Ben: As pessoas tendem a levar um tempo pra entender a gente. Não estamos presos restritamente ao thrash old school, mas também estamos distantes da nova escola – estamos meio que presos no meio, algures, acho que somos um pouco únicos nesse sentido.
EP: Pois é, nota-se isto principalmente com Infected Nations, segundo álbum, que atingiu o top 100 em UK. Uma sonoridade diferente, com mais diversidade, um outro lado da banda – mais técnico você diria?
Ben: Bem, nosso produtor disse que nós gravamos o álbum número três antes do segundo (risos). Saímos de um thrash puro pra começar este thrash meio prog, complicado, parece que ficou faltando um álbum de virada pelo caminho! O que acontece é que escrevemos nossas músicas muito cedo em nossa carreira, alguns temas do Enter the Grave (primeiro álbum) foram escritos 4 anos antes do álbum ser lançado, e já com o Infected Nations rolou de colocarmos toda nossa criatividade pra fora e ver o que iria nos trazer. Sei que alguns dos fãs antigos estranharam de princípio, mas a maioria gostaram; talvez forçamos um pouco a barra com esse álbum mas a verdade é que nos abriu a cabeça e nos guiou o caminho até o Five Serpent’s Teeth.
EP: Com certeza, vê-se que há uma conexão natural entre os dois álbuns. Agora, como rolou de conseguir o lendário Michael Whelan (autor do cover art de Beneath the Remains, Arise , Chaos AD e Roots do Sepultura, além de Obituary e Stephen King) pra fazer a arte?
Ol: Cara, começou tudo como uma piada entre eu e meu irmão (Matt)! Estavamos ouvindo Beneath the Remains e eu brinquei que eu ia ligar pro Michael Whelan pra fazer nossa arte também. Ele tirou o maior sarro de mim, e aí eu pensei “por que não?”. Então eu mandei um email pra ele, falando sobre nosso novo álbum, que eu tinha esse conceito e que conseguia visualizar a arte dele pro álbum, e ele respondeu “Yeah, tô nessa!”. Mesmo dizendo que somos uma banda pequena, que provavelmente não tínhamos grana suficiente pra arte dele como Stephen King, ele topou fazer dentro do nosso mísero orçamento porque ele curtiu o projeto (rindo).
EP: Os festivais de metal são cada vez mais abundantes. Sendo uma banda estabelecida no fim da década de 2000 e crescendo a cada álbum, vocês sentem que a música pesada está novamente crescendo em geral?
Ben: Certamente, a vibe está muito boa novamente. O problema é que o metal foi meio que degradado por estes sub-gêneros que vieram entre os anos 90 e começo de 2000.
Ol: Poo* Metal hahaha
* poo = cocô, pronuncia-se pu, fazendo referência ao nu metal dos anos 90.
Ben: E muitos outros gêneros de música pesada que tiraram a atenção da mídia e empurrou o metal pro underground, mesmo com as bandas ralando pra cacete pra sobreviver. Cinco, seis anos atrás acho que o metal ganhou uma nova força. É muito massa ver as bandas que começaram isso tudo ainda tocando, ralando em turnês fazendo o maior número de shows possível, o que acaba mantendo a porta aberta pra bandas como a nossa, tá ligado? Nós ainda olhamos pra eles como ídolos, e posso dizer que o que eles fazem hoje ainda acaba nos guiando.
EP: Verdade, mas imagino que ainda é difícil de extrair dinheiro deste mercado e fazer uma vida apenas disso.
Ben: Pode crer, extremamente difícil! Algumas pessoas pensam que temos tudo na nossas mãos quando lançamos um álbum, que estamos feitos. Não é assim, é apenas mais um degrau que subimos de uma longa extensa escada, cheia de degraus pra serem ultrapassados. No meio do caminho, o dinheiro se torna um problema, mas quando se ama o que se faz, não se questiona.
Ol: Pois é, fazemos a música que amamos, mas se tivermos de fazer isso desta maneira por mais três álbuns por exemplo, não será possível. Não podemos pra sempre dedicar nossa vida para gravar álbuns, sair em turnês sem fazer lucro, voltar pra casa quebrado e não conseguir nem pagar as contas.
Ben: No começo é muito do caralho, mas temos noção que não somos mais crianças. Estamos em um estágio das nossas vidas em que temos de cuidar do nosso futuro, e fica tudo muito mais difícil quando se trabalha numa indústria que te paga como se você ainda fosse aquela criança, que espera que você se sinta bem em apenas poder tocar e viajar o tempo todo as vezes até sem parar pra almoçar… e quando chegamos em casa, temos nossa vida batendo na porta e temos que pagar pra viver. Aí falamos pra nós mesmos: “Merda, não podemos viver assim pra sempre”.
EP: Na outra mão, hoje é dia do show de lançamento do mais novo álbum – Five Serpent’s Teeth. As críticas têm sido extremamente positiva, alguns meios colocando a tocha do metal em vossas mãos. Vocês acham que este podem ser o vosso momento?
Ol: Cara, eu não penso nisso. Não somos pessoas que queremos ser ricos, saca? Estaremos bem se este pudermos viver fazendo isso – sair em turnê, fazer nosso trabalho, voltar pra casa e estarmos bem, confortáveis!
EP: Hoje é um dia feliz para vocês, não vou prolongar uma conversa que traz forte lembranças, mas eu gostaria de saber, após o que aconteceu com Mike Alexander (baixista original que morreu durante turnê européia em 2009), o quão importante foi a ajuda de todas as bandas e personalidades para manter o Evile?
Ol: Eu realmente acredito que não conseguiríamos passar por esta barra e continuar fazendo nosso trabalho como fazemos hoje sem a ajuda destas bandas. Tivemos caras como Ozzy Osbourne, Metallica chegando pra gente tipo “Toma aqui estes ítens pra vocês leiloarem e arrecadar fundos!”.
Ben: E Slayer, Exodus, Anihilator! Bandas que nunca ouvimos falar entraram em contato com a gente, seja pra enviar os sentimentos ou pra nos ajudaram a divulgar o leilão. É incrível a atmosfera e o sentido de ajuda que existe no thrash principalmente e no metal em geral, duvido que exista tal semelhança em e qualquer outro gênero. No momento de dificuldade, todos se uniram e nos tiraram do abismo, seremos eternamente gratos!
Edu: Verdade, todo metaleiro – seja músico ou não – é também um eterno fã, e isso faz a diferença.
Ben: É isso mesmo.
EP: Vocês lançaram também há algumas semanas um cover para uma revista, parte de um tributo ao Nirvana. Lounge Act foi a faixa escolhida, e você Ben conseguiu meter um pedal duplo na batera de Dave Grohl?!
Ben: Hahaha o que mais poderia fazer? Quanto à faixa, é um som bem definitivo no álbum deles, meio que separa o álbum em diversas formas… tenho certeza que os outros caras sabiam o que fazer com o baixo ou guitarra mas quando se fala de batera de grunge, como se pode fazer algo que já soa sujo prá caralho ainda mais sujo? Pedal duplo! (gargalhando)
EP: Musicalmente falando, pra quem conhece Evile o sentimento que passa é que vocês tiveram quase que desaprender a tocar pra fazer aquela cover. Fala sério, vocês conseguem tocar Nirvana até a caminho do banheiro, não?
Ol: Haha cara, não é bem assim! Pô eu até curto a linha de baixo daquela música (fazendo uma cara que não acredita no que disse). Sem faltar respeito ao Kurt Cobain, mas são aqueles acordes dele que ele ama demais e como guitarrista é meio aaaarghhh… então falei: “vou meter um riffão aqui só pra fazer mais metal”!
Edu: Pois é, eu notei, ia perguntar o que se passou ali…
Ol: hahaha… Funcionou!
EP: Mas como uma banda de thrash metal, vocês não ficaram com um pouco de receio de tocar Nirvana, onde uma massa ainda culpa o grunge por quase arruinar a onda do metal nos anos 90?
Ben: Quem nos conhece sabe que não temos medo de fazer algo fora do padrão, completamente diferente. Desde o início temos como princípio que a banda tem de evoluir sempre, não podemos fazer a mesma coisa em 5 álbuns. Isto seria como estagnar na carreira, nadar contra a corrente – não é algo que acontecerá com Evile.
Ol: Funciona com AC/DC, não com a gente.
Ben: Pois é, temos de ir pra frente. Se alguém bate um fone e pergunta se podemos fazer uma cover para um álbum tributo – tamos nessa! É algo novo, fresco e a enquanto pudermos fazer isso da nossa maneira, como amamos e tocamos, aí podem contar com a gente.
E se alguém ousar vir pra nós e dizer que não somos mais thrash, bem… eu mando eles ouvirem Enter the Grave! Somos a bada que gravou aquele álbum! Ainda temos a mesma pegada em nós.
EP: Agora vocês estão há apenas algumas horas de oficialmente lançarem o novo álbum aqui em Londres. Dá pra ver a satisfação e alegria que vocês estão sentindo. Como foi a jornada do Five Serpent’s Teeth – estúdio, gravação e agora turnê de lançamento?
Ol: Fantástico! Desde que terminamos Infected Nations eu já comecei a escrever riffs. Foram dois anos de trampo, intenso - e hoje olhando pra trás esse processo todo é como uma névoa, tudo se mistura em uma só coisa. Agora é tipo: “WOW” todo o trabalho será mostrado.
Ben: Foi realmente muito esforço colocado em ensaios e escrevendo música com e sem a banda que quando chegamos no estúdio pra gravar conseguimos fazer tudo muito rápido. Isto também aumenta nossa confiança de subir no palco e fazer o mesmo ao vivo, só temos de ultrapassar essa ansiedade, só quero estar lá em cima, tocando as músicas pra galera ouvir.
Ol: Tipo meio que gritando dentro de nós em expectativa “Curtam isso… vocês vão curtir o som!”.
EP: Ansiosos?
Ben: Eu pessoalmente estou muito nervoso hoje! Não que eu não saiba o que estou fazendo, mas é pra mim o começo de uma nova era para o Evile.
EP: Uma nova era… orgulhoso por chegar até aqui como chegaram?
Ben: Com certeza, estou realmente muito orgulhoso do que fizemos! É que ainda é muito recente, e é apenas um sentimento de expectativa sobre como vai soar ao vivo e qual vai ser a resposta do público. Uma vez que estivermos lá em cima do palco, tudo isso fica pra trás.
EP: Fique tranquilo. A passagem de som foi perfeita e tenho certeza que também será no show. In Memoriam (música dedicada à Mike Alexander) estará neste show?
Ol: Hoje não! Estamos orgulhosos de ter escrito este tema, amamos o resultado final e tudo o que significa, não só para nós mas para todos que algum dia já perderam alguém na vida. Apenas terá de ser um momento mais propício pra tocar esta música. Quando for uma massa maior que podemos fazer um set mais variado talvez. Se tem 500 pessoas gritando por thrash e os riffs rápidos que estão acostumado com Evile, não acho que cairá bem tocar uma “balada”.
EP: Mesmo com todos os fãs sabendo o significado da música?
Ol: Pois é, eu não quero que as pessoas tenham de ouvir a música e entrar na vibe tipo: “Ah é pro Mike, vamos entrar na onda…”. Não rola, vamos tocar quando for o momento certo, é um tema contemplativo – tem se der apreciado com mentalidade certa, da maneira certa. Realmente acredito que não seja um tema pra um show de thrash metal, mas isso não que dizer que em um par de anos não fará parte do nosso set-list. Não agora.
Ben: Verdade, quando tiver pessoas suficientes que se importam com a banda e tudo o que o tema tem pra dizer, sim, será meio que uma norma no nosso set-list.
EP: Beleza, muito boa sorte daqui a pouco e vejo vocês da roda!
Evile: Valeu Eduardo e Mondo Metal, muito obrigado!
Live Review: EYEHATEGOD + Church of Misery @ Camden Underworld, London
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Camden Underworld, Londres, 26 de Junho
Domingo que é bom vem devagar, acompanhado de uma boa cerveja, amigos e música alta. E pra celebrar o dia mundial da “porranenhumisse” – após um sábado negro de riffs matadores do XII London Deathfest-, nada melhor que um dia de sludge e stoner metal fechando o final de semana no The Underworld em Camden. Os encarregados da nada árdua tarefa foram Church of Misery e EYEHATEGOD, como parte da turnê “Re-tox and Nihilism Over Europe” que passou por 13 países.
Os Japoneses de Church of Misery, banda de Tókio e um dos maiores expoentes do gênero no país, conseguiram a proeza de trazer positividade a um som obscuro de letras sombrias, que lidam com serial-killers e massacres. Culpa disso é o carisma e entrega do vocalista Yoshiaki Negishi que não parou um minuto no palco, e conseguiu arrancar sorrisos de todos, inclusive da imprensa e fotógrafos que se alinhavam para ver o show do backstage. Yoshaki esteve com a galera, recebeu de braços abertos os que ao palco lhe visitavam, e os refrões eram cantados por quem quisesse se aventurar no crowd surfing. A banda se mostrou em grande sintonia, e o seu sludge com tons psicodélicos agradou. Entre poucas palavras com um inglês não tão fluente, despediram-se com muita gratidão e reverência, e a recíproca veio do publico entre muitos aplausos.
Roadies em cena e os PA’s tocavam o melhor do jazzy-blues de New Orleans (NOLA).
EYEHATEGOD demonstra naturalmente o orgulho no peito do simples fato de ser de Nola; na atitude – não apenas como músicos – mas na maneira de viver a vida. Como o caricato vocalista Mike Williams diz: somos do sul, de New Orleans, e tocamos como vivemos, vivemos como trabalhamos… lento e pesado!
Nola é a capital do Sludge Metal mundial, com bandas como Crowbar, Down, Soilent Green, Kingdom of Sorrow, e claro, EYEHATEGOD que merece créditos como um dos, senão o grande precursor do gênero. É muito normal e quase que universal a troca de membros ou criação de projetos paralelos entre a comunidade sludge de Nola. Maior exemplo sendo Jimmy Bower, guitarrista do EYEHATEGOD e do Superjoint Ritual, também baterista do Down – que aliás tem presença confirmada para o dia 14 de Novembro no festival SWU que acontece aí no Brasil. Será a primeira apresentação deles em terras brasileiras e aqui eu deixo minha dica!
Quando todos os membros estavam já sobre o palco, Mike Williams deposita sua garrafa de Vodka perto da bateria, que viria a ser degustada no gargalo durante toda a apresentação. Enquanto a banda se sentia confortável com o palco e todos se cumprimentavam como se estivessem pra começar um jogo da NFL, Mike entretém o público com piadas esdrúchulas e até arrisca uma sátira cantando um blues acompanhado pelo baixista Gary Mader. O público grita “EYEHATE GOD EYEHATEGOD” e Mike imenda: “Por quê?… Ele não existe”.
Em clima de grande descontração, uma tiete ganha espaço, saindo do backstage. Embreagada ela rouba o pedestal de Mike e grita algo sem sentido. A banda, meio que sem saber o que fazer, manda ela fazer um stage dive, enquanto o público pede para ela tirar a blusa. Nem um nem outro, o segurança leva a garota para o backstage, não sem antes ser escrachada por Mike Williams.
Distorção e microfonia… quem conhece EHG sabe que esse é um sinal de que o som está pra começar. A reprodução ao vivo, entretanto, é perturbadora… o zunido intenso leva-nos até a descrença que aquilo realmente esta acontecendo. Nada breve, estende-se por minutos sem fim, e todos os membros preparados e olhando para o baterista Joey LaCaze se perguntam: “E aí?! Qual vai ser?”. EHG não toca com set-list e cada tema vem como surpresa… até para a própria banda!
Sister Fucker Pt.1 abriu o concerto e daí pra frente a freqüência do baixo e a afinação gravíssima das duas guitarras tomaram conta do Underworld. O som, muito alto e a bateria bem microfonada, traziam toda a melancolia caótica no melhor de EHG. Brian Patton cresceu junto com o som, e o trio da frente formado por figuras muito diferentes – Mike, Brian e Jimmy – se completaram. Mike tem uma postura única no palco, ele e seu pedestal que por inúmeras vezes atingiu o teto baixo do sombrio Underworld. Brian está sempre envolvido com algum outro artista, segurando a vibe do som, e Jimmy, para além das linhas lentas e pesadas, é dentre todos um fã que está em cima do palco. Ao fim de cada tema ele é o primeiro a bater palma pros próprios caras e quase que invariavelmente puxar o próximo som.
Sem um setlist pré definido – marca da banda de ir com o flow do show – fica muito complicado lembrar quais foram os temas tocados, mas pra quem ta assistindo é impressionante a diferença que faz no desenrolar do show. Como se a banda tocasse sempre o som certo pr‘aquele momento. Algumas faixas sempre marcam mais o show, como New Orleand is the New Vietnam e a inconfundível Dixie Whiskey. Em meio ao show, quem aparece novamente ao palco? A doida embreagada… mas desta vez Mike não perdoa! Após mostrar os peitos pra galera, Mike da-lhe um safanão que lhe manda pra roda “Good bye, b*tch!“.
Infelizmente ela não seria a única perturbação ao show… já na segunda metade, o amplificador do baixo pediu água. Técnico de som no palco, mais piadas e estórias do fantástico mundo de Mike. O problema não durou muito para ser arrumado. Também não tardou a retornar. Mais dois sons – Story of the Eye / Southern Discomfort – e o amp caiu novamente. Impossível explicar a vibe que estava naquele local. A banda não fez firula e enquanto o técnico suava para arrumar o prejuízo, Mike aproveitou e iniciou um parabéns em ritmo doom para o baterista LaCaze! Brinde de Vodka e o show continua. White Nigger e a fantástica Jack Ass in the Will of God foram outras duas músicas tocadas antes que o amp realmente acabasse com a paciência dos caras.
Mike se mostrou meio frustrado com a situação, enquanto Jimmy berrava: “Não páre pô, vamos tocar, vamos!!! Toca essa porra!” Era esse o clima do Underworld, mesmo com mais de 1h de show, ninguém queria parar. E verdade seja dita… as guitarras e seus tons pulsantes são tão graves que daria perfeitamente para continuar o show sem o baixo. Aposto que mais da metade do publico nem notou a falta do instrumento. De qualquer maneira, Gary estava ali pra tocar e não queria ficar de mão abanando. O publico mostrou um grande apoio, e enquanto Mike e Joey deitavam a vodka, Brian tomou a iniciativa de pegar um outro amplificador que estava no backstage, provavelmente do Church of Misery, e trouxe correndo pro palco – trabalho rapidamente executado.
Um final de show caótico que estranhamente muito tem a ver com toda a vibe da banda – desprendida, descompromissada e diversão acima de tudo. Após o show, alguns membros ficaram pelo palco cumprimentando os fãs que não os deixaram. Mike despediu-se agradecendo a um show memorável. Idem!