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Live Review: Converge, Kylesa e Gaza @ULU, London

Photo: Daniel Knott

Converge é a personificação de uma banda que começou por baixo, caminhou por estradas perigosas e atingiu o cume por uma estreita brecha. Seus esforços foram impulsionados por um trabalho árduo e honesto, fruto de um amor incondicional da banda por sua arte. Sem nunca procurar atalhos, firmes e focados, hoje celebram suas conquistas no topo do mundo.

Existem artistas que impulsionam a história, amplificam sua arte e mutuamente se levantam. Outros, a exemplo desses americanos de Salem – Massachusetts, desafiam a história e optam por escreverem-na traçando as linhas ao seu gosto, e sem muito esperar, o futuro lhes fortifica com um gesto de graça e reverência devidamente merecido. Quem nunca viu, aconselho antes de mais, procurem o DVD “Long Road Home”, que mostra Converge, ano a ano, tocando em garagens, porões, e nos menores palcos que o underground já teve, até encabeçar festivais internacionais, tudo muito cru e sem edição, como a própria banda.

Assim mesmo, Converge não sabia o que vinha pela frente. O alto de suas carreiras, após 20 anos, 10 nadando em lama e caos, parece ainda estar adiante! Seus dois últimos trabalhos, “No Heroes” – 2006, e o mais novo “Axe to Fall” – 2009, não falharam ao impressionar críticos e fãs – os dois foram escolhidos por diferentes mídias especializadas em punk/metal como um dos melhores trabalhos do ano e para muitos o melhor  (Decibel e Terrorizer entre outros). Isso tudo somado ao fato de que “Jane Doe – 2001″ foi eleito pelo site Sputnik – contando com um fórum de juízes que incluiu renomados produtores, músicos, blogueiros e jornalistas especializados – o melhor álbum da década! Um prêmio nem tanto pela vendagem ou impacto mediático em seu ano de lançamento, mas um consenso unânime da legacia impressa na música que mudaria o mundo de 2000 pra cá. Agressividade e atitude com técnica, matemática e técnica… já falei técnica?! sim, uma técnica nunca antes vista no mundo do punk/hardcore, além de riffs marcantes, capazes de abalar a espinha dos mais audaciosos e deixar Kerry King orgulhoso.

Converge veio para a Europa, trazendo uma equipe de suporte escolhida a dedo: Kylesa como co-headliner, Gaza e Kvelertak. As bandas se diferenciam significantemente uma das outras, mas assim sendo, se complementam, o que faz a noite e as mudanças no set serem tão refrescantes quanto gratificantes.

Infelizmente não consegui presenciar os noruegueses do Kvelertak. Uma pena pois esses camaradas possuem credenciais. Ainda em turnê mundial, John Baizley (Baroness) ouviu algumas demos do novo álbum, e imediatamente os contactou: “Tenho de fazer o artwork desse disco!”. Proposta orgulhosamente aceita! E não ficaram por aí. Kurt Ballou do Converge não só encabeçou a produção do álbum auto-intitulado, mas também os levou para gravar em seu mítico estúdio em Salem. Fica a dica para os apreciadores…

Gaza já subia ao palco quando fui admitido, e devo também admitir que esses americanos de Salt Lake City – Utah, vieram pra marcar presença! Com um ritmo pesado e grave, Gaza apresentou um repertório com muita energia, não demorando para contagiar o público que rapidamente tomou conta da área do palco na Universidade da Cidade de Londres. Não só de energia foi feito o show, Gaza deu mostras dos motivos que fizeram Converge os trazer pela primeira vez para a Europa – uma sonoridade característica, suja e densa, compartilhada por riffs técnicos de progressão matemática. Um hardcore/grind renovado, com nuances de crisp progressivo de extremo bom gosto. Pra ser sincero, com tanta levada poli-rítmica, manter o tempo, energia e postura não é um trabalho fácil para seu baterista, que numa dessas quase perde o polegar no aro da caixa. Apenas um arranhão.  Como banda de suporte, Gaza colocou pressão e deixou muito trabalho para ser feito pelas cabeças de cartaz, e em meio a muitos aplausos, se despediram despejando um longo caos – Jon, o vocalista cantando na roda e fazendo gestos com uma garrafa d’água como se estivesse batizando o público, Luke e sua guitarra no chão, baixista no PA e a bateria sobreviveu… por pouco!

Dica? Confiram o primeiro álbum da banda: “I Don’t Care Where I Go When I Die” (2006). É a expressão do poder que a banda leva para seus shows.

Kylesa sobe no palco sem muita demora. A disposição dos “móveis da casa” é logo notada, pois arrumar um palco com duas baterias não é das tarefas mais comuns (eu também não queria estar na pele do técnico de mesa). Nada comum também é o poder que essas duas baterias carregam através do set. Os kits de Tyler Newberry  e Carl McGinley são visivelmente diferentes – um utiliza tons maiores e mais fundos além de um par a mais de pratos. O segundo tem um kit mais compacto e além de um sino. Logo de início a pulsação da energia deixada por Gaza foi dissipada em uma psicodelia de roupagem nova, que tem sua maior força no ambiente constante, que ganha uma amplitude impressionante ao vivo. É como ouvir ao vivo uma bateria amplificada em estúdio, e a sensação de ouvir levada e virada ao mesmo tempo leva uns minutos para acostumar.

Como outras bandas que se assemelham em estilo, o vocal – compartilhado pelos guitarristas Phillip Cope e Laura Pleasants – não é prioridade, mas sim um acompanhamento aos instrumentos.  Mesmo com Laura assumindo os vocais, ele não deixa de ser sujo; a melodia vem em solos e riffs bem colocados, marcados pelo baixo de Corey Barhorst, que soa como um metrônomo unindo todas as sonoridades em tempo. Um público antes agitado, toma agora fecha os olhos e viaja junto com o som.

Kylesa se apresenta impecável! Arranca sorrisos e brinca com a emoção da platéia, aumentando a velocidade e ferocidade das composições a medida que o concerto avançava, fazendo a roda abrir para logo depois se fechar para bater a cabeça em movimentos confusos e pouco metódicos. Jacob Bannon também apontou do backstage, curtindo o final do set de seus companheiros, como que aquecendo e ganhando motivação para o “gran finale“.  Com muitos aplausos, Kylesa se despediu em grande estilo, provando que o novo álbum, Static Tensions (curiosamente também teve seu artwork criado por Baizley), tem muito para oferecer, em estúdio e principalmente ao vivo.

Converge sobe logo ao palco com nada menos que o marcante tema de abertura de “Jane Doe” – Concubine. Um pequeno minuto de música que pareceu se estender por um largo período. Inexplicável a confusão que se armou adiante do palco. Jacob percorre toda sua extensão, várias vezes seguidas… quer cantar? ele irá colocar o microfone na sua boca, e se você não souber a letra pode ter a certeza que ele irá tirar sarro da sua cara. Verdade seja dita, nas 10.000 vezes que o microfone foi ao público, menos de 10 ele foi propriamente utilizado… mas essa não é a ênfase, Jacob quer que todos presentes façam parte do show. E nessa euforia por um pedaço do protagonizmo, a roda move para a parte de trás, e mais a frente é tudo um tumulto, como abelhas atrás do pólen, todos voam para ter um pedaço do palco e do microfone.

Coposições mais recentes – Dark Horse, No Heroes e Axe to Fall – vêm em seguida. Como se diria no nordeste: a pêia, come feio! Com uma média de 2 pessoas no palco por vez, os roadies têm de entrar em ação… um desafortunado caiu em cima do microfone de Bannon em um dos refrões, e voltou kickando pro meio da galera com um pontapé no traseiro e um tapa na nuca… do próprio Bannon! Após o incidente, Jacob brincou: ” Tenho visto aqui um dos piores stage dives da minha vida… que palhaçada é essa?!”. Nate, o baixista, adicionou: “Isso se chama “stage flop” (gafe/falha). Pois você dá uma gafe no palco e também falha na vida!”. Chamado para o palco, um dos corajosos, ao rufar da bateria, deu uma performance aos olhos de todos… 360! Jacob assim fica mais feliz.

O arrepiante riff de Worms Will Feed / Rats Will Feast abre ala para uma nova sessão, mais sombria, pesada e intensa, seguido de Last Light. Kurt Ballou sabe como ninguém utilizar sua guitarra para criar distúrbio. O som estava limpo, como nunca antes ouvira em um show de Converge – acostumado a vê-los em palcos e porões menos condicionados. O técnico de som que ali estava trabalha com a banda há 10 anos… explicado! Todos os tons, riffs, notas e até, surpreendentemente, o vocal de Bannon estavam nítidos. Kurt entregou toda sua alma nessa oportunidade, via-se extremamente focado em desempenhar o melhor possível ele quase não se moveu, como se estivesse num mundo a parte – ele e sua guitarra. O mesmo vindo de Ben na bateria, dado o rápido tempo imposto pelas composições da banda, só levantava a cabeça nas pausas – uma precisão e senso rítmico invejável! A movimentação, casualidade e comunicação com o público vinha sempre de Nate e Jacob, que pareciam estar no topo de suas formas. Visivelmente felizes e positivos, não escondiam a gana de tocar esse show.

Explorando o novo material e versões do consagrado “Jane Doe”, Converge terminou o set com algumas das favoritas dos fãs, The Broken Vow e Homewrecker. Após pausa, mais um riff à Slayer e Wishing Well finaliza o show. Tanta música boa e o setlist nem conseguiu comportar as aclamadas Thaw, Forsaken, e para a surpresa de todos The Saddest Day foi esquecida… E com todo o pesar que isso possa soar, não fizeram falta! Converge têm em 20 anos de carreira muito para apresentar, e de minha parte, feliz fico que o novo material dá conta do recado.

Se tem uma banda que tem todo o direito de se auto-intitular “culto” (www.convergecult.com, @Convergecult), essa banda é Converge. Com todos os méritos!

  1. Concubine (Jane Doe)
  2. Dark Horse (Axe to Fall)
  3. No Heroes (No Heroes)
  4. Axe to Fall (Axe to Fall)
  5. Worms Will Feed / Rats Will Feast (Axe to Fall)
  6. Last Light (You Fail Me)
  7. The Broken Vow (Jane Doe)
  8. Wishing Well (Axe to Fall)
  9. Reap What You Sow (Axe to Fall)
    10. Homewrecker (Jane Doe)
    11. Locust Reign (The Poachers Diaries)