Entrevista: John Baizley, Baroness
13 de Abril, 2009
Entrevistado: John Dyer Baizley, frontman, guitarrista, e vocalista do Baroness.
EP: Como é comum em todos os novos gêneros de metal, começam a se espalhar em uma região, influenciados por bandas percursoras, e acabam tendo um impulso mundial. O vosso caso não é diferente, com bandas como Neurosis, Mastodon, Isis e Kylesa.
JB: Com certeza.
EP: Cada uma tem sua sonoridade única, mas compartilham uma mesma veia criativa. Neste aspécto, acredito que Baroness ainda assim consegue se distinguir destas bandas, com uma sonoridade mais natural e verdadeira. Vê-se que comunicam com muito mais gêneros dentro e fora do próprio metal. Como você definiria o vosso estilo?
JB: É difícil para mim como músico definir nosso estilo. O que posso lhe dizer é que deste cedo, quando consegui tirar os primeiros sons da guitarra, sempre me preocupei mais com o “feeling” do instrumento, e como eu conseguiria com a música e como músico expressar o que eu sentia. Acho que esta é a grande sacada de todas as grandes bandas, as bandas clássicas do rock / metal, como Zeppelin e Sabbath que todos somos até hoje influenciados. Naquela época este era o sentido de fazer música, havia esta energia impossível de distinguir, música nua e crua. Eram músicos verdadeiramente dizendo o que sentiam atravéz da música.
Como você citou, surgem sempre novos estilos, há muitas bandas mais influenciadas pelo jazz, como Dillinger (Escape Plan), preocupados mais com a parte técnica. Isso é outra coisa. Não nos preocupamos com isso. Nossas músicas refletem o período em que foram escritas. Estamos bem e positivos? Será algo mais obscuro e negativo? Quando terminamos uma música e ouvimos, ouvimos a nós próprios… somos nós? A música se relaciona conosco? Se sim, quando estamos no palco nos apresentando nós vamos ser sinceros, vem de um lugar mais dentro de nós do que apenas nomes de notas e escalas que poderia te falar tudo sobre mas estou pouco me fodendo. É nossa essência exteriorizar nos instrumentos o que está dentro de nós.
EP: E é exatamente aí que digo que vosso som é mais orgânico. Se soa verdadeiro pra vocês, com certeza soará e se comunicará genuinamente com o público.
JB: Yeah, é o máximo que podemos esperar, que nosso público consiga ouvir-nos e relacionarem-se com nossa música, nem que seja por um instante. Por isso que tento não pormenorizar explicações, sabe? O que as músicas significam pra mim, para você pode ser algo completamente diferente, há uma conexão mútua entre artista e público que pode ser um tanto vaga, essa troca de sentidos ao vivo é parte do motivo porque eu toco música. Quando fui aos primeiros shows, fiquei fascinado! E não foi tanto por cada músico tocando a música, mas o que a música trouxe pra mim e me fez sentir naquele momento. Desde esta primeira experiência este é meu objetivo em fazer música. Foda-se se é complexo, rápido ou lento… o que interessa é o que eu sinto e quero transmitir.
EP: Não posso deixar de reparar que você faz todo o trabalho gráfico da banda – capa, logo, merchandising. Mas não só para o Baroness, há outros trabalhos para revistas e bandas que fazem parte do cenário como Torch, Kylesa, Darkest Hour. Como você segue a carreira de ilustrador? Há uma mesma importância – arte e música?
JB: Ah, claro que sim! Assim… eu até hesito em chamar isso de carreira, porque carreira já entra no lado financeiro da coisa. Entenda, eu estaria fazendo esta arte e esta música mesmo que ninguém nesse planeta ligasse pra isso. Eu sempre fiz e continuarei fazendo isto pra mim mesmo, é parte de mim.
EP: Ouvindo Baroness, a música é como um retrato visual. Há bandas que também são apelativas neste sentido, como Tool, mas Baroness tem uma abrangência mais pessoal e crua. Estas viagens que somos induzidos pela sonoridade da banda é como um espelho da sua criação artística. Neste sentido, onde a arte começa a influenciar sua música e a música sua arte?
JB: Veja bem, na verdade eu não separo as duas coisas. Pra mim, pessoalmente, é apenas uma experiência – a arte extende-se igualmente pela música e vice-versa. É suposto haver esta inter-comunicação. Você menciona Tool, e eles são uma das bandas que, enquanto eu crescia, criaram sua própria identidade que é sólida como uma rocha, absolutamente intransigente e comprometida, e essa direção da banda foi o que me impressionou. Aí está, muitas bandas tiveram este tipo de comprometimento, esta coesão de arte visual, algumas também levam para os vídeos, que seguem a linha do conceito visual do álbum com o palco e vira um projeto gigante. O Tool é um excelente exemplo. Eu não sou diferente, é tudo um só grande projeto pra mim.
EP: Explorando todos os lançamentos da banda até hoje, nota-se uma evolução gigantesca dos primeiros 3 EP’s para o Red Album. Evolução que também não passou despercebida, onde vimos o Red Album figurando no topo dos rankings entre os melhores álbuns de 2007 pela mídia internacional. Pra vocês foi uma surpresa o reconhecimento da mídia e dos fãs, ou já era esperado?
JB: Foi uma puta surpresa! (entusiasmado). Você faz os EP’s e de repente este salto gigante! Mas a verdade é que estes EP’s foram todos gravados ou criados muito cedo no contexto de nossa existência como banda, e há praticamente dois anos e meio entre eles e o processo de criação do que viria a ser o Red Album. Pra nós, o que foi um processo longo e penoso de criação, entre escrever, ensaiar, gravar, selecionar as melhores partes, mixar, e tudo mais, pra quem pega para ouvir os álbuns, está consumindo apenas pequenas visualizações desde longo processo. Aí de repente este grande, enorme passo! Sabe, eu imaginava que haveria algum reconhecimento, assim como críticas, pois realmente soa distinto dos três primeiros trabalhos. Apesar da surpresa, honestamente, eu não estava nem aí para o que iriam dizer. O fato que estou aqui contigo agora significa tudo pra mim, pois sou eu, com minha arte chegando onde estou, entende? Mídia, negócios, publicidade, tudo isso não signifíca nem uma centelha pra mim que uma pessoa que ama música e vem prestigiar meu show, que se interessa e sente uma conexão com minha arte, isso sim me surpreende. É isso que me dá energia para continuar, porque o resto é parte do cenário, todos temos de fazer – assinar contrato com uma gravadora, mesmo que seu álbum seja bom, ruim ou mediano. Disseram-nos que tivemos o melhor álbum do ano… claro que é fantástico, foi maravilhoso para nós este reconhecimento, mas muito mais importante que isso é presenciar estas pessoas que vêm ver nossos shows, não tanto que apenas compram o álbum. Sempre fomos uma banda de performances ao vivo, é isso que sabemos fazer.
EP: E por que Red Album?
JB: Por que o nome? Bem… Poderia responder esta pergunta em vários níveis, mas vou ter de me desculpar porque há apenas um nível em que posso ser honesto contigo, por respeito a todo processo que a banda passou, e que toca algumas referências mais obscuras de envolvimento extremamente pessoal no trabalho deste álbum. Tim (Loose) foi nosso primeiro guitarrista, que compôs os conosco os três primeiros EP’s durante os dois anos que esteve na banda. Ele saiu da banda no processo de gravação do terceiro EP. Por respeito a ele e tudo que ele criou, queríamos pôr um fim àquela era. Toda a idéia de nomear este novo álbum, foi como “vamos ser simples e entediantemente honestos sobre isso. Não adianta dar um título demasiadamente poético que ninguém vai entender”. Assim, um novo tema, um novo início – Red Album. Tão basico e vago quanto eu posso ser! (risos).
EP: Logo após o lançamento do Red Album vocês praticamente não pisaram mais em casa, percorrendo Europa e EUA sucessivamente. E quando tudo parecia estar prosperando para o Baroness, recebemos a notícia que Brian (Blickle) estaria deixando a banda para seguir sua carreira em advocacia. Como vocês reagiram à esta decisão?
JB: Sabe… foi uma decisão discutida com toda a banda. Não há mágoas nem ressentimentos, não foi um ato impensado, não criou conflito algum. Viver de música e estar em turnê quase todo o ano não é necessariamente fácil. São 23 horas que não são legais e uma hora que é do caralho! Uma hora de total libertação e completa entrega. As outras 23 horas do dia para lidar com as mesmas pessoas. É complicado e pode ser imensamente exaustivo. Acho que para o Brian, como qualquer ser humano racional que segue a lógica de sua cabeça, isso não faz sentido. Há muito pouco dinheiro, muito trabalho, e muito tempo que, se você assim pensa, pode gastar fazendo coisas mais produtivas pensando no seu futuro como cidadão. É assim que ele viu a situação e eu respeito totalmente sua escolha. Desejamos sorte a ele, que será sempre um membro imporante que sentimos muita falta na banda, mas já movemos adiante. Peter é o novo guitarrista e é tão músico quanto ele, igualmente nosso amigo e totalmente parte da banda, como qualquer outro membro que por aqui passou.
EP: De qualquer maneira, vocês continuam tocando cada vez mais, diante públicos cada vez maiores. Todo este duro trabalho, a exaustão da estrada nas 23 horas é recopensada em 1h quando você está frente a eles, em cima do palco? Esta 1 hora consegue suprir todos os outros intervenientes?
JB: Po, claro que sim! Os 3 membros de formação da banda – Summer, Allen e eu, estamos juntos e nos conhecemos há quase uma década. Damo-nos muito bem nestas outras 23 horas. Sabemos preencher nosso tempo com outras mais valias que não sejam auto-destrutivas ou humilhantes. Aprendemos com os anos como manter as turnês interessantes, como continuar criando música, nos ajudando, enriquecendo e sendo construtivos. De qualquer maneira é difícil, mas o trabalho em si é difícil, e tudo nesta banda foi construído com trabalho árduo, se fosse fácil provavelmente não faríamos. Enquanto as pessoas pagam para ver nossos shows, estaremos aqui fazendo isso. É o que somos. Somos os caras que também fazem parte da audiência, vamos a shows, ajudamos outros artistas. Sou tanto fã de música como músico e assim continuarei.
EP: Europa e Estados Unidos… grande diferença?
JB: Porra! Enorme diferença! (risos)
EP: Sério? Em que aspécto?
JB: Cara, titânica diferença! Os EUA é apenas um grande país onde é tudo muito semelhante, apenas parece diferente. Europa é muito cultural. País a país, são diferentes culturas e muito interessante para nós americanos, e só o fato que podemos fazer isso é mais que um prazer para nós! Aprendemos algo novo diariamente, encontramos sempre novas pessoas, todas diferentes, tentamos mesmo mergulhar na cultura local – comer da comida, beber do vinho –, por que não?
EP: Momentos e shows memoráveis?
JB: Uff… São muitos para tentar apenas relatar… Cada cidade é uma história diferente para mim. Poderia escrever um livro sobre este último ano. Poderia escrever uma enciclopédia sobre os últimos seis!
EP: E nesta estrada, o velho cliché de “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll” ainda reina?
JB: Nunca reinou nem irá reinar para nós. Não vamos pra cama por causa da banda, nem conseguimos drogas por isso. O que fazemos muito é Rock’n’Roll mas isso é o que somos. Somos criativos e está dentro de nós, como te disse, se não fizessemos profissionalmente estaríamos fazendo em caves ou garagens. É para nós uma maneira de “beber e brindar o mundo”, está tudo aqui para ser experimentado. Ao mesmo tempo que estamos apresentando nossas experiências para você, também estamos recebendo e assimilando o máximo que podemos. Se temos uma hora livre, talvez eu vá tocar guitarra, mas também posso dar uma volta pela rua, sabe? É tão importante quanto a própria música pra mim.
EP: Como você mencionou, a grana é pouca. Vocês são uma banda relativamente nova. Você procura fazer uma vida segura disto? É um projeto para o futuro, talvez já com o novo álbum, ou venha o que vier vocês estão prontos?
JB: Honestamente, no fim do dia, vejo que não estou aqui pela grana. Todos nós temos outras aptidões fora da música. Quando chegamos em casa, se ganhamos ou perdemos, se é um empate, ainda temos algo para fazer, e como eu disse antes, eu não gosto de discutir o lado financeiro das coisas. As vezes é bom, e pode ser péssimo, e se assim fosse ainda daríamos tudo para estarmos aqui.
EP: O sucessor do Red Album… a Relapse anuncia em seu site que sairá já este ano.
JB: Se fosse por mim, confirmaria que sim, sairá este ano! Mas ainda temos de passar por todo processo de gravação, de um album que estamos concluindo neste momento enquanto conversamos. Vamos torcer, cruzem os dedos e que seja 2009!
EP: E como tem sido este processo de composição?
JB: Intenso! (risos)
EP: Escrevendo na estrada?
JB: Não! Bem… praticando na estrada, meio que polindo o material. O Peter e eu passamos basicamente os últimos 5 meses juntando o material e trabalhando nele. É mais um novo membro, o que faz uma nova banda essencialmente. Allen vive em Nova Iorque e desce para passar uma semana com a gente quando pode. Mas espero que soe bem. Bata na madeira!
EP: Novo membro, nova banda… teremos um Blue Album então?
JB: (gargalhada) Bem, veremos!
* Afinal, o novo trabalho do Baroness é intitulado “Blue Record”. Acertei, de certa forma.
EP: E o estilo, como vocês estão sentindo a evolução?
JB: É difícil pra mim descrever o estilo, porque tudo ainda é tão novo, soa tão fresco! Estamos curtido demais tudo isso, como te disse, Peter é meu amigo mais antigo do mundo, e conseguimos nos comunicar de uma maneira que é muito rara. É muito especial na minha vida ter este tipo de empatia com uma pessoa onde comunicação não envolve diálogo ou explicação. Tem sido um enorme prazer compor e tocar com ele. Estou muito ansioso, estamos muito positivos sobre o novo material e curtindo cada vez mais. Claro que vai soar diferente, novo. Basicamente o conceito do álbum é transformar nossas fraquezas em virtudes. Queremos escrever um álbum que expresse o máximo de nós quatro como músicos quanto possível. Faz sentido? Pra mim faz…